segunda-feira, 7 de abril de 2008

Sobre o Galo, a Terceira Idade e o Odiar

O canto do galo invade novamente o meu sono e atua em meu sonho afastando os elementos de seu lugar mais natural. E, embora eu saiba que o galo canta por instinto, e não age contra a mim, a ordem jurídica e política ou moral - acordo mal.

O pobre galo não é mau, nem é nada. Ele não cria nem destrói sociedades, ele não ameaça nem oferece salvação. Ave burra e sem requinte que não se lembra do momento anterior nem planeja o momento seguinte.

Meu vizinho, sim - ao alto de seus oitenta e tantos anos, possui a faculdade de lembrar e planejar. Ele é presumidamente uma estrutura organizacional superior ao galo, que, embora envelhecida e enrijecida por uma vida de desamor, é sem dúvida capaz de calcular o peso da dor.

E é capaz inclusive de pensar filosoficamente, sendo, portanto, embora um tanto decadente, capaz de criar e fazer o bem. Mas o velho, que já não prestava quando era neném, escolheu ser daqueles velhos capazes de fazer um inferno da vida da gente.

Meu vizinho que não presta embora pudesse prestar não goza daquilo que terceira vida, a vida mística e religiosa lhe permitiria gozar. Ao alto de seus oitenta e tantos anos, quando a vida se esmera em distingui-lo do simplesmente humano, ele vive ao contrário da vida.

Livre dos afetos e das paixões, esse monte de carne e ossos não busca a sublimação, desconhece o que João chamou de o segundo espírito, e com um galo no quintal, projeta a mim todo o mal, por ser mau ou por talião – não contra a mim, que de antemão nada o fiz, mas contra o mundo que, vai saber...

Só me resta, contudo crer que ele pensa ser eu sujeito de alguma ofensa. E que a sua vida de desamor e outra doença qualquer que não me diz respeito, dá-lhe o direito de roubar-me o sono por meio de um galo idiota. Eu me calo a refletir, tendo o sono perdido, sobre o que o faz pensar que deve um suposto ofensor sofrer o mesmo mal que ao ofendido imputa.

Mas calma aí! Jamais gritei ao ouvido deste filho da puta!

A mim resta então viver neste acordar desesperado e me por a escrever para não arder em raiva, como numa forma de oração. Eu jamais terei o velho por irmão - este engenho improdutivo desumano. Talvez lhe reste pouca vida, espero que menos de um ano. Mas já que não tenho tempo para odiar, e já que tenho muito tempo para transcender e transigir, deixo a raiva dormir comigo. Assim eu calo e eu espero. Afinal, não fosse o vizinho seria outro o inimigo. E não fosse o galo, seria outro bicho, o caminhão do lixo ou até mesmo o quero-quero.

Drigo

segunda-feira, 17 de março de 2008

Sobre o Esperar III

A esperança se disfarça em
Memórias do que ainda não vivi
Chega e me enfia hoje a faca do futuro na garganta e diz:
-De nada adianta fingir
Que o homem que sou não foi moldado pelo menino que nasci

Ou fingir que os meus planos são destino
Ou que vivi em desatino sem saber onde ia dar
E é, pois então que prefiro dar
A esperança o título
De inimiga mortal que me coloca de joelhos
E me faz implorar por piedade
Desculpar-te de tua maldade
E escutar os conselhos de quem é tão vazio

E a esperança me pariu
Sabendo-me não durar
E sabe ainda que as memórias que hão de vir
Apagar-se-ão
E que será assim definitivamente em vão

Esperar
Enganar a consciência de que
O que sonhei
Fora sempre e para sempre será
Destruído pela conseqüência do fui, pelo que hoje sou e pelo que não serei
Em dias que não sei

Até que o fim derradeiro que me queimará por inteiro
E que não me porá novo jamais
Devolva-me enfim a paz
E nada mais então será dito ou escrito sobre mim

A não ser “aqui jaz o maldito”
Que por tanto esperou
E que em tanto acreditou veementemente
A cada sol nascente

Devia ter tão somente bastado o conforto
Do abraço amigo
O deslumbre com sol poente
Devia ter bastado cerveja na mesa do bar
Devia ter bastado a música

E a ilusão de ter sido desejado
A cada desejar

Drigo

domingo, 2 de março de 2008

Sobre o Esperar II

De certa forma eu espero
Numa esperança que me corta e sangra
Os olhos e me faz arder e me sentir mais
Pesado do que a gravidade do problema

Dado o peso que o sistema
Imputa sobre meus ossos

E os “não-queros” e “não-possos” que eu escuto mesmo quando todos silenciam
Roubam-me a alegria de viver o dia a dia
E me fazem sofrer pelo que sei e o que eu não sei
Até o ponto onde já não sei mais
O que dizer
Ou dizer se esperei a toa

Se a vida é ruim ou se ela é boa

E se você também se sente assim sem saber como se sente
Eu lhe proponho uma proposta mais do que decente

Façamos um pacto
Esqueçamos Deus e o diabo
E façamos seus os meus ouvidos e os meus ombros

E eu te retiro dos escombros que viraram nossas vidas
Pois esperar é acreditar que há saídas entre o céu e o sob o chão

E,

Até que eu te tenhas imersa em compaixão
Eu imergido de antemão te digo mil sins e nenhum não
E eu espero assim me fazer presente nesse mundo
E fazer de cada segundo

Uma nova possibilidade
De uma nova geração

Drigo

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Numa Sexta-Feira

- Eu fui enviado pelos céus
Não se atreva a esquecer** –

Enquanto Jameson sussurrava palavras que ele escutara numa música qualquer do último álbum de sua banda preferida, certo de que essas palavras eram suas e se não fossem,

Poucos conheceriam a banda e muito menos seu último álbum, que não havia sido sequer lançado no Brasil.

E depois, pouca gente presta atenção às letras de música nesta cidade imunda,
Neste fim de sul do mundo

- E eu sou tudo o que você sempre quis.Tudo o que todos os outros caras prometeram.
Desculpe estragar o mistério, mas achei que você devia saber**

Iasmin bebeu num só gole a margarita de morango e pediu outra. Ela não conhecia a banda, ela não estava certa de que as palavras eram de Jameson.

Mas pouco importou, pouco importa.

A quem pertencem as palavras? Ela pensaria fora essa questão.

Mas a questão era a ansiedade que lhe consumira o dia e que agora lhe consumia o cartão de crédito e lhe consumiria a manhã e a tarde seguinte num ciclo vicioso ao qual ela não conseguia escapar.

Por isso ela não resistiu.
Não julgou. Tampouco ignorou.

- A solidão é uma merda. E as minhas inseguranças venceram a minha vontade de lutar.

Iasmin pensou se fora Jameson ou sua mente quem falou desta vez. Prefiriu não se importar.Fechou os olhos e deixou a mão do garoto percorrer por sobre seus ombros e seu coração.

As bocas se uniram em desespero.

Naquela noite, naquele bar, duas bocas solitárias beijaram para não que dois olhos cansados não viessem a chorar.

Drigo

** Ok I Believe You But My Tommy Gun Won’t - Brand New

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Sobre os Galos, as Mães o Ópio e o Absinto

"A minha dor não é a digna e sobre-humana como a dor do pai que perde o filho,
E minha raiva não me consome pelo fato de não consumir-se em ato, mas sim por ser indigna de um filho de bom trato,
Mas confesso se não sei doer à dor do fato, sei doer por compaixão, e se não sei odiar sem culpa, então culpo o meu irmão”

Acordo-me frequentemente em meu sono atordoado ante o conflito que é a minha vida e culpo o galo,
que não tem hora pra cantar,
Uma vez estuprado em meu sono minha ocupação é odiar o galo, que por sua vez me ignora a raiva...
Vil estuprador!
Sou então sede de uma dor com a indignidade daqueles que sofrem por suposição, impotente numa sinuca de bico, O galo fecha o bico, não sofre menos o mundo com esse relato abstrato,
E continua assim a minha aflição

Enquanto dormem o pai, a mãe e o irmão, eu sigo doendo e odiando pelos cômodos da casa,
E a dor física me corta as asas da imaginação, me pondo louco,
Loucura, fruto podre da opressão...!

(Tempo para dar ao poema dramaticidade)(....)

Oh mãe! Guardas de mim o bálsamo que me alivia a dor!
Inocentemente guardas por amor ou pelo instinto
De seres mulher e exigires teu valor?
Eu te valorizo agora me faça um favor,
Transcenda o instinto,
Dá-me o ópio e o absinto!

Mas convenhamos que loucura é ser estuprado por uma ave ou culpar a mãe pelo sono perdido
Isso é desumano e sem sentido, afinal,
Não serão o amor na mulher e o canto no galo um mesmo instinto?
E talvez saibam as mães de fato qual é o fado do filho
E pedir ópio a mãe não é nada natural

Assim o é - para o desumano, que é um louco, só há uma salvação,
Dar-se conta da loucura em contexto completo
Compreender-se incompleto e buscar a humanidade
De modo concreto e como plena vocação

Oh preciosa compreensão que me silencia a alma
Acalma-me a culpa e me faz digno em minha dor
Busco a paz e a paz encontro mesmo enquanto em febre ardo,
Pelo fardo dos que dormem em paz concedida
A noite de sono perdida não é em vão e não deve ser ressentida
Agora sei que embora durmam os outros, essas marcas não são minhas,
Fui roubado de meu sonho por perceber a distorção
Cabe a mim então, que não me enlevo em inocência,
Denunciar ao mundo sua indecência, e fazer-me solução.

(Canta de novo o galo, o sono vem e aborta-se o poema).

Drigo

Sobre o Esperar ( Um Poema Quase Existencialista )

Imortal e imatura esperança
Impertinente ao acreditar, esvaindo-se na descrença.
De volta em loucos sonhos a me assombrar

Como se eu não soubesse que

Enraizadas em cada um de meus ossos
As desilusões de cada antepassado
As dores e os desenganos de
Cada um morto Costa, de cada enterrado Godoy

E que saibas, portanto e agora
Porque me sinto são em noites onde dói-me a alma
Desesperado em dias de calma e perdido ante um sorriso verdadeiro

E que saibas, portanto e agora,
Porque a cada meio que te aproximas

Eu movo-me inteiro

Faz-se já tempo que sei que os felizes se perdem em devaneio

Pois que seja então nosso destino esse jogo de esconde-esconde

Mas não me entendas mal, eu me vejo confuso ainda assim onde
me encontras tão vulnerável

A pensar...
O que é a vida senão ilusão
E não será a esperança por conclusão
Minha única conexão para com esse mundo?

É quando então me vês a bradar e a bramir entusiasmado:

Que sirva-nos a todos a tal da esperança!
E que nos permita ela mover, alcançar e atingir!
Porém,

Atingir o que, afinal?

Não será melhor viver na angústia
E andar no andar da humanidade?
Até que chegue a morte em toda sua crueldade
A dizer
Por tempo demais esperastes

Agora aquietas o coração e descanses
Estivestes certo na medida em que errastes!
E assim é a matemática da arrogância
Simples, mas incompleta,
Não satisfaz na medida em que é certa nesta ânsia por compreender

Mas, a cada pulsar do coração, a vida pára num instante de silêncio e me diz
Descanses a lógica nesta morte em brevidade
E tu, alma racional, aceites o sublime como por sorte e por verdade

Sabendo que.

No decorrer do seu tempo e a cada momento
Tivestes razão
Não mais que a metade das vezes,
Não mais que cinqüenta por cento


Drigo

sábado, 7 de julho de 2007

Gauche na Vida ( Para Drummond )

Meus olhos de oceano
Anseiam pelo dia
Em que o sol poente levara consigo
Cada lagrima contida,
Ardida, pois, e sofrida sim
Estão todas elas perpetuadas
Todas em mim

E a lua
Rasgará a bruma fugaz
Que me cobre alma antiga
Minha alma audaz
Mal compreendida, minha moral perdida
Já não importa mais...

E eu seguirei então,
Tal como Drummond,
gauche na vida.

Em desesperada busca por inocência
Eu superarei a decadência
Da riqueza material
Voltarei a mim, afinal

E, Entre cada sonho e cada manha insistente
Em delírio, persistente
Canso, danço e liberto a mente

E a cada vez que sou colírio
Perdão imploro
A olhos aos quais fui cloro ardente

Mas não duvide,
Sonharei ainda, em aventuras ciganas
Por possíveis dias de felicidade
E, Por possíveis fusões humanas
Na cama, no quarto...

E enquanto a cidade adormece e reclama
Sua própria identidade
Ciente eu sigo,
No mundo que conta dólar por dólar
E furacão por categoria
Eu crio o mundo inbetween

Meu mundo depende de mim
De minha fantasia
Alegoria por alegoria
Minuto a hora
Hora a dia
Sabendo que Deus é acima de tudo
Uma grande ironia

E o futuro da cultura reside
No sol nascente, no sarcasmo e no não saber
E a quem me faz curioso ofereço amizade
E a quem me faz parecer
Pouco, demais, nobre ou vil
Ou ainda ingênuo e indiferente.

Eu lhe enganei...
Primeiro de Abril
Sinto muito, mas meu tempo é acima de tudo
Preciosidade

Por quanto minh’alma ardente clama
Pelo corpo e pelo que o corpo chama
Arde
Pressente
Conclama

E eu vou a fundo,
acordo cedo
E durmo tarde
Não minto, eu tenho medo
Mas não sou sacana,
nem sou covarde

E a cada segundo iminente
O passado vem à tona como a por fim a tudo
Para cada Fiorento morreu um Jose
E a cada Joana um Rodrigo
A cada Mariah uma Duda

Assim é a matemática da vida
A cada alegria uma alegria ferida
Uma dor aguda, uma dor sentida

Mas a cada um mais, um dois e afinal,
Sigo sozinho
Mas solitário jamais
A guerra entre o bem e o mal não é minha
Não mais,

E se deus e o diabo brigam
Que me deixem em paz....

Escolho a melancolia
Pelos anos sessenta onde nem era vivo
E pelos setenta e pelos oitenta e pela inocência perdida em noventa e nove
O mundo move
E entre o bem e o mal, o senão
E entre o quadrado e o circulo, a espiral
O que parece obvio ao mundo automático
Ao mundo tolo, ao mundo industrial

Sobrenaturalmente padece ao abraço amigo
Meus olhos de oceano refletem o que carregam consigo
Entre o côncavo e o convexo, o que chamam Rodrigo
Vive,
Entre o verde e o azul profundo
As cores possíveis e as cores impossíveis do mundo
E as nuances sonhadas

Ah as nuances que eu vejo e quase ninguém vê,
Me fazem sobrevivente,

E o mundo que almejo
E que nesse momento te faz sorrir
É o mundo que mereces
O mundo que mereço
Pois que saibamos então
Que entre preces e preços
E entre o mundo dos anjos e
O mundo atroz

Vale escolher ficarmos bem
Valemos nós
Entre eles, elas, depois e agora e entre um e dois, três
Valemos mais sendo um mais um e mais um talvez

Minuto a hora,
Hora a dia
Dia a mês
E se somares doze, um ano
E se somares lagrima a lagrima contida

Um oceano
Trinta e dois anos,
Uma vida.

Drigo

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Sobre a Serenidade e o Querer ( Para Whitman )

Minha alma descansará esta noite
Ah como!
Anseio por sentir
Desejo descansar esta mente incansável
Desejo que a natureza me guie nos caminhos desta vida

E se ainda tenho esperanças
É, pois,
Não compartilho com os desejos desse mundo
Com o mundo dos homens e grupos de homens
Com o mundo dos livros e das leis e da linguagem

Meus padrões são os do oceano e da terra e são os padrões da atmosfera
Eu sou o rio que se mantém puro em seu curso
Sem saber
Que eu sou o resultados de resultados
Do clima e da gravidade
E que sou tormento tanto quanto
Serenidade

Trazendo vida aos campos que me cercam
Eu trago vida em mim
Vida em movimento, a expressão da vida

Eu sou a vida na forma de Homem
E eu sou vida feita à imagem da essência de toda vida
Ao passo que eu escolho abraçar a vida e vida criar

Não espero pela cura de meu corpo para fazê-lo
Visto que sou mais que minhas doenças e sou mais que minha saúde
Eu sou o Homem que escolhe o que é bom e o que é puro
E eu sou o Homem que não ensina e sequer é ensinado

E mesmo que meus pulmões mal respirem
E que meus olhos ardam
E que minha pele sufoque
Ainda assim o ar
Ainda assim a luz
Ainda assim a água

Anseiam todos por servir
O propósito da vida
O propósito de mim

Outros homens virão e julgarão
Outros homens virão a oferecer
Mas eu sou o Homem cujo coração silencia todas as vozes
E eu sou Homem que renega tudo o que não vem do coração

Enquanto as conversas poluem o ar
Eu sou a essência das folhas e das flores e do mato
E sim, eu compreendo de fato os meus erros.
E aceito a condição da cada um deles

Meus erros não me assombram e minha fraqueza não é mais de quem eu sou
E eu não sou daqueles que se esconde até sentir-se forte e sábio
E tampouco finjo ser forte ou sábio
Eu mostro a minha condição ao mundo e espero mais do que um simples concordar,
Um balançar de cabeças...

Eu espero uma mão amiga que me afague os cabelos
Um amigo que me alivie com palavras gentis
Mas ainda assim, não vou trocar carinho qualquer pela domesticação de meu amor

Sequer trocarei palavras gentis, mesmo ditas por bocas muito honestas por menos do que
Sinfonias de gratidão

Drigo