sexta-feira, 6 de julho de 2007
Livre
Destas cinzas eletrônicas
Como a verdade rompe a noite com o sol
E eu vou então viajar de costa a costa e depois
De Norte a Sul
Através das cidades e florestas
Por trilhas e estradas
Parando para ler poemas
Assistir pores do sol
E para fazer amor com as estrelas
Com o tempo e com as pessoas
E eu vou sentir
O ritmo do meu coração
Vou viajar sem dinheiro
Duro em esquecimento brilhando
Em salas escuras no fundo de botecos
Os dias passando
E as pessoas
Vindo ao meu encontro
Eu vou contar estórias
Algumas verdadeiras
A novos amigos bêbados
E vou escutar estórias
Meio bêbado
Meio ouvindo
Sentindo-me um estranho
Para sempre estranho
Exceto para as árvores e céus e para o vento
Vivendo
Conforme a intenção da natureza
Caminhando em direção ao horizonte
Por caminhos desconhecidos
Esquecendo-me de tudo o que não me é útil
Na cultura
De tudo o que é vulgar e mesquinho
Tudo o que mata
E vou viver como escrevo
Apaixonadamente
Como uma promessa de liberdade
Por que assim como minhas palavras
Eu carrego comigo
A semente da transformação
Drigo
Metanfetamina, 6pm
A noite cai
Imóvel eu presencio o movimento
Dos pássaros que voam baixo
Das pessoas que falam e andam e abrem portas
Das cores que perdem o brilho e ganham mistério
Eu ouço o telefone, as vozes, os carros
Imóvel eu sinto o movimento
Ao redor e dentro
Dentro
O medo espia e eu acendo a luz
A dor brota e eu piso e esmago
Eu calo, o corpo berra
Dentro, uma guerra
Corpos e anticorpos
Pensamentos e sentimentos
Ao redor,
Berra a cidade, incoerente
Pisando, esmagando
E sob a nevoa densa da mediocridade
Acende a luz e se entorpece
Escondendo as estrelas
Escondendo-se de si
Faz uma prece
E entre o bem e o mal
Segue indiferente
Entre o bem e o mal
Esquece-se o essencial
E segue a cidade, doente
E ante meus olhos perpetua-se esse espetáculo de indecência
Imóvel, aparentemente
Eu sou turbilhão, eu sou um universo
Mas distante e opaco, perdido em devaneios
Sou pedra a olhos alheios
E as pessoas deitam e calam e fecham portas
E com certa dose de medicamento
Adormecem toda a culpa e ressentimento
A mim, elas sim - parecem mortas
Livres de suas dores e de seus amores
Somem na escuridão das cores
E parece que a cidade,inerte, me dispensa
Dorme Perdida em sonhos que não são meus
E assim noite abriga as dores do mundo
Mas o conforto acomoda a ilusão
Que toma consigo minhas vis defesas
E abre as travas da prisão
Me vejo vulnerável, e
O medo vem forte e rápido
Alimentando a dor que cresce e sufoca
A febre queima e a vida implora
De mim uma atitude
Meu coração bate alto e rompe o silencio
Acorda meus instintos
As mãos movem
Fieis
Respondem ao clamor da vida
Eu sou então movimento
E explodindo sobre a tela
Sem contenção
Escrevo sobre o que sei e o que não sei
Eu sou a febre do mundo
Na escuridão do silencio que brota e eu esmago
E no turbilhão da dor que some em luz
Eu sou pai filho e o espírito santo
E a mãe em pranto ao pé da cruz
Drigo
Convulsão
Define minha vida num constante desequilíbrio de forças,
E o não saber-me mais do que o que o espelho mostra
Faz pender-me ora a um lado
Ora a outro
E faz-me viver vertiginosamente
Em arritmia
Mas eu espero que o tempo faça desta convulsão de notas
Uma mais que perfeita melodia
E eu espero que valha então a pena
Não calar-me e insistir
Em esperar e acreditar
Só assim eu posso matar a dúvida
Que insiste em me convencer em pensar e a viver
Ao contrário da vida
Drigo
terça-feira, 3 de julho de 2007
Sobre a Noite, a Poesia e o Bar
E fui tentando incorporá-los
De uma forma um pouco exata
A meu mundo abstrato
Sem romper com meu compromisso
Em ser suficientemente abstrato para que não se comprometa e emoção exata
Pela exatidão do fato
E eu fui diluindo
Tanta exatidão no papel
Com as cores na minha cabeça
Refletindo as cores do céu
Eu cheguei a quatro páginas e um terço
Numa fonte pequena
Fazendo sentido
Numa aquarela de cores
E assim pelo fim do terço final
Da quarta página
Fui caminhar pela noite
Achando-me poeta e sábio
Sob a lua
Para o bar
Num lar que não era meu
Encontrei conversas mundanas
Sensível que sou
Sofri pessoas sacanas
Bebi e sorri uma inocência
Da qual quase me envergonho
E assim a noite foi me traindo
A cada gole eu fui me traindo
E fui diluindo
As cores de minha cabeça
Numa escuridão tropeça
Numa fonte pequena e bêbada
De pouca sabedoria
E fui então rompendo
Com meus compromissos
Tornando-me concreto e mundano
Num mundo abstrato e cigano
Tornando-me de fino trato
Para com quem não merecia
Ao raiar do dia
A agonia da consciência que berra
Sofrendo o sol queimando-me a mente
Do fundo de minha alma eu imploro por forças
Que não me deixem cair por terra
Eu olho para o sol com os olhos ardentes
E garanto as forças que me fizeram refém
Que o mundo em que vivo é o mundo do bem
E que eu perco a batalha,
Mas não perco a guerra
Drigo